21 setembro 2007

Cortar o cabelo

me...me...me...Me o quê, raios partam isto, porra. Assim não vou a lado nenhum! Parece o romance do Snoopy que há cinquenta anos não sai do "era uma noite fria e tempestuosa".
Desculpem os leitores esta franqueza de linguagem, mas nenhum escritor é de ferro e isto de escrever por encomenda é ofício cão e muito propenso a achaques, particularmente nos casos em que o talento é minguado, o que não sendo, modéstia à parte, o meu caso - far-me-ão essa justiça-, não obsta a que também tenha os meus dias àridos.
Sucede que ontem, ao jantar, não resisti à orelheira e quando assim é, o melhor é esquecer o dia seguinte para fins de talentos gramático-literários porque, é certo e sabido, farei o papel de Snoopy em cima da casota.
É nestes dias que aproveito para tratar das coisas terrenas, tipo cortar as unhas dos pés ou...ou... cortar o cabelo. Genial! É isso mesmo! Cortar o cabelo. Vou cortar o cabelo. Assim como assim há já meses que pareço um cão de àgua.
Para benefício e ilustração dos leitores, saibam V. Exas. que temos na nossa cidade o melhor barbeiro do distrito. Sem bairrismos, o título é conferido unanimemente - até pela concorrência- ao Neca Barbeiro, profissional com quem tenho o privilégio de privar e a quem o meu pai confiou, há 40 anos, a tarefa de domesticar a minha exuberância capilar.
Diga-se, em abono da verdade, que cliente que entre na barbearia do Neca deve ir preparado para duas coisas:
1-o leque de opções oferecidas à freguesia varia entre o "corte à francesa" ou "à escovinha". Só. Ou um ou outro. "Nada de mariquices, amigo Silveira";
2 -o saber enciclopédico do baeta sobre os segredos e macetes da criação de canários, pintassilgos e rabecos, bicharada devidamente exposta no estabelecimento, em quantidade faraónica.
Vestido o casaco, apagada a beata, bati a porta atrás de mim e num pulo estou no ascensor a assobiar a musica da Floribella ( engraçado: nunca tinha usado a palavra ascensor e soube-me bem).
Sozinho, faço aquilo que faz toda a gente que se acha sozinha no elevador.
O maquinismo parou no 3º andar, para receber uma mulher, recente aquisição do prédio.
Tinha um rosto para o feiote, por sinal. Mas, no entanto...

03 setembro 2007

Márcia e Mário Quintana

A Márcia, por via travessa, “apresentou-me” a Mário Quintana, gaúcho, celebrado como poeta das coisas simples. Que, de facto, é.
São tão abundantes e desconcertantes as suas “pérolas” que delas poderíamos fazer um manual tipo “Como sobreviver à Vida”.

Dele, a Márcia gosta deste poema:

Um dia perceberemos que beijar uma pessoa para esquecer a outra é bobagem você só não esquece a pessoa como pensa muito mais nela
um dia percebemos que mulheres tem instinto "caçador" e fazem qualquer homem sofrer
um dia descobrimos que se apaixonar é inevitável...
um dia percebemos que as maiores provas de amor são as mais simples
um dia percebemos que o comum não nos atrai
um dia saberemos que ser classificado como "o bonzinho" não é bom
um dia percebemos que a pessoa que nunca te liga é a que mais pensa em você
um dia saberemos a importância da frase "tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"
um dia percebemos que somos muito importantes para alguém e não damos valor a isso
um dia percebemos que aquele amigo faz falta, mas aí já é tarde demais
Enfim, um dia percebemos que apesar de vivermos quase um século, esse tempo todo não é suficiente para realizarmos todos os nossos sonhos, para beijar todas as bocas que nos atraem, para dizer tudo o que tem que ser dito
O jeito é: ou nos conformamos com a falta de algumas coisas na nossa vida ou lutamos para realizar todas as nossas loucuras...
quem não compreende um olhar, tampouco compreenderá uma longa explicação!

Este gosto, por si só, é suficiente para lembrar a Márcia e depor a seu favor.

Cruzei-me com ela, circunstancialmente, em viagem auspiciosa. Tem a elegância das mulheres altas e fala como se soubesse que amanhã irá ficar muda para sempre.
Nunca mais tive notícias da Márcia, mas tenho a certeza que lá continua torturada pela ausência do marido que a abandonou por outra mulher. Não sei se se atormenta por amor ou por despeito. Mas, pensando bem, muitas vezes, um e outro não passam de sinónimos.
E sei que, em cada quinta-feira, continua a sair à noite, para beijar um homem diferente e, dessa forma, melhor se lembrar do marido burro que jamais voltará.

08 agosto 2007

06 agosto 2007

As férias do Sr. Hulot

O sol inclemente deste domingo maltratou a minha pele, reconhecidamente melhor preparada para banhos de luar do que para aventuras balneares.
Gosto, porém, desta peculiar praia de perene nortada, onde a temperatura do mar é adequada a ursos polares, como se correntes e marés não soubessem medir latitudes. Os locais insistem em chamar-lhe Moreiró, mas mapas e tabuletas batizam-na de Sampaio.
A ela chega-se por caminhos apertados por extensos milheirais e casas de lavoura anacrónicas, o que só acrescenta ao seu privativo encanto. Um ou outro tasco "acafézado" oferece-se aos banhistas, sem vislumbres cosmopolitas, que por lá, de qualquer modo, estariam deslocados.
É de tempos recuados a vereneação por aquelas bandas, pois lá está o Castro de Sampaio (uma dúzia de pedras reveladoras, testemunham se necessário for), pendurado nas dunas, com vista de condominio fechado sobre o oceano. Seriam da Idade do Ferro, mas os sampaienses ancestrais, em matéria paisagistica, não eram pecos.
Convite amigo, mas igualmente interesseiro, carregou-me a Sampaio.
- Amigo, porque de facto é.
- Interesseiro, porque gulosos e conhecedores das minha lendária (e secreta) habilidade na arte grelhação de toda a sorte de peixes e viandas, armadilharam a minha estância com um cento de sardinhas (das gordas) e umas brasas manipuladas com adequado "savoir faire".
Incapaz de iludir o destino, dediquei-me com bravura à minha arte, cuidando sardinhas e carvão da mesma forma que o Diabo pastoreia almas no Inferno: com calor e devoção. E, também como o mafarrico, vestido de uma reduzida tanga.
Nesses preparos, vislumbrei, porém, uma subtil intervenção Divina. Dava-se o caso de ter um frigorífico prenhe de cerveja gelada, distante do inferno um mero estender de braço. Não podendo abrigar o resto do anatomia, a goela, pelo menos, foi um permanente oásis de frescura. As sardinhas, com agrado geral e comentários encomiosos, fizeram juz à fama do artista e marcharam que nem figos. A cerveja fez igualmente o seu papel desinibidor e, por meu intermédio, desassossegou os convivas (particularmente os de mais bom gosto no vestir), à força banhos de mangueira, actividade que, estranhamente, recolheu firme apoio e incentivo no seio da miudagem e da única cadela presentes no nosso seio.
No rescaldo destas actividades hídricas, o prejuízo foi claro para uma senhora de Lisboa, circunstancialmente convidada, que regressou a casa com um sorriso amarelo e uma câmara fotografica estragada por uma mangueirada mais desastrada. Pode ser que a câmara seja das subaquáticas.
Gosto da estética daquela casa de praia, que, por alguma estranha razão, sempre me faz lembrar as "Férias do Sr. Hulot" e me transforma, por um par de horas, em burguês.
A Lua, nunca a tinha visto nascer como hoje, assim, tão bonita, redonda e grande, atrás de uma casa antiga, la longe, no meio de um campo de milho.
Fotografá-la, sem preparos prévios e demorados, não é possível. Fotografar uma paisagem com Lua tem os seus macetes e carece de equipagens que não estavam à mão. Pena!
Talvez por causa da Lua de hoje, do cão e do pavão não há notícia. Pode ser que, contrariamente à voz corrente, haja na sua existência de animais alguma percepção do Belo e se limitem a observar o astro, reverentes.
Apesar de ainda feder genericamente a sardinha, no meu braço esquerdo, contrariando as químicas, continua a resistir um pequeno oásis aromático.
Vou dormir para o terraço.
segunda feira, 30 de Julho, 1h58