12 dezembro 2007

1812 - Tchaikovsky

Nos meus temos recuados de gaiato, na aldeia onde nasci, num pequeno mas altaneiro monte, não havia grande coisa para fazer e, como tal, paradoxalmente, a gente divertia-se muito.

A catraiada era despejada na rua às primeiras horas da manhã e só tinha ordem para se chegar perto casa à hora "do comer". Animais sociais que eramos, naturalmente, deslocavamo-nos em bandos ranhosos, devassando hortas e quintais, seguindo cegamente as ordens do respectivo macho alfa (ou fêmea, que nunca fomos esquisitos em questões de género).

Os que ainda não andavam iam pendurados ao colo dos mais velhos e nenhum se perdeu ou caiu a poços ou se magoou seriamente, salvo uma outra cabeça rachada, para fortalecer o carácter.Nesta ausência de entretenimento local, as romarias constituiam sempre ansiados oásis: o S. Brás, a Sra. da Saúde, a Sta. Rita, o Senhor de Matosinhos, o Bom Despacho, a Sra. das Dores, o São Pantaleão, a Sta. Eufémia e o Sr. da Agonia, por esta ordem cronológica, eram uma espécie de temporada taurina.

E o que tinham as romarias? Procissões, foguetório e bandas de música. Daí que assistíssemos compenetrados às procissões, para gozar os anjinhos; entrando o copioso foguetório, dedicavamo-nos à audaciosa actividade de apanhar as canas e, na hora do despique das bandas, zanzavamos à roda do coreto, ouvindo aqui e ali as apreciações dos rigorosos melómanos residentes.

Lembro-me perfeitamente que era o "1812" a prova derradeira da categoria da banda. Era pelo "1812" que a crítica afinava o ouvido e decidia da qualidade dos concertistas, ou da falta dela, está bom de ver. Por isso, quando as primeiras notas do "1812" se faziam anunciar, até a canalhada parava e, ciente da gravidade do momento, afitava as orelhas, para, também, poder ter opinião.

Também eu, não sabendo, na altura, do Tchaikovsky ou do Napoleão, andei nessa guerra, que recordo agora com saudade, pela paz inocente desses tempos.

21 novembro 2007

Intimidade

Todas as quartas feiras, uma mulher banal, vai ter com um homem, ainda mais banal, a um apartamento espartano (melhor dito miserável) num qualquer subúrbio de Londres.
O propósito da visita semanal é um só: sexo. Por isso, parcas palavras são trocadas.
Não se sabe quem são ou como se conheceram. Apenas se sabe da infalibilidade do calendário. Dele vai-se descobrindo aos poucos uma infernal existência pessoal. Dela, nada. Mistério absoluto.
Porém, todas as quartas feiras, dois corpos, que já conheceram melhores dias, cedem aos instintos mais básicos, sem conversa superflua. A ela isso bastava-lhe. A ele, um dia, deixou de bastar, e resolveu segui-la.
Sem ela perceber, descobriu-lhe uma vida corriqueira de dona de casa, com um filho, casada com um taxista gordo, desinteressante entre os desinteressantes.
Numa atracção de mariposa pela luz, o amante (?) interage com o marido enganado, até lhe sugerir, nas entrelinhas de conversas de pub, o estranho caso que a mulher dele mantém consigo.
Logo que descobre que deixou de ser anónima, a dona de casa acabou com as quartas-feiras e escolhe seguir a vidinha no táxi, para felicidade do taxista.
A traços grossos, esta é a história de "Intimidade" (Intimacy) [trailer], filme de Patrice Chéreau, que em 2001 ganhou o Urso de Ouro do Festival de Berlim.
Gerou, na altura, (soube, não me lembro) alguma controvérsia pelas ousadas cenas de sexo explícito (mesmo explícito) e foi comparado ao "Último Tango em Paris.
A crítica feminina zurziu-lhe pela falta de verosimilhança da história: nenhuma mulher se sentiria atraída por aquele sexo, daí que o filme fosse, diziam, uma mera reprodução do estereótipo da fantasia masculina.
Porém, o ele ir atrás dela deita por terra a típica imagem de macho, reconhecidamente pouco dada a conversas nesse departamento.
No entanto, quando vi o filme, há uns anos, confesso que fiquei na dúvida: fantasia ou a arte imitando a vida?
Hoje, porém, não tenho dúvidas. A conversa é inevitável, logo, a história é plausível.

20 novembro 2007

Vigilância

" Vigie seus pensamentos, porque eles tornar-se-ão suas palavras;
Vigie suas palavras, porque elas tornar-se-ão seus actos;
Vigie seus actos, porque eles tornar-se-ão seus hábitos;
Vigie seus hábitos, porque eles tornar-se-ão seu carácter;
Vigie seu carácter, porque ele tornar-se-á seu destino."

Esta é uma citação usada a propósito de tudo e de nada na blogosfera.
Nunca vi referência à origem, mas palpita-me que se inspire na Epístola de S. Paulo aos Filipenses.
Se for possível evitar o excesso de zelo vigilante, sempre nefasto à germinação das ideias, parece-me ser um cuidado básico de higiene mental, a praticar naquelas vezes que nos dedicamos à tarefa de "arrumar os papeis" na cabeça.